Impacto da adesão ao rastreio organizado para câncer colorretal com teste imunoquímico fecal (FIT)
Emilia-Romagna FIT Baldacchini F, Bucchi L, Giuliani O, et al. Clinical Gastroenterology and Hepatology 2022;20:2373–2382 DOI: 10.1016/j.cgh.2022.01.053
707.751 pessoas seguidas · 5.509.976 pessoas-ano. Mediana de 9,5 anos; seguimento truncado em 11 anos (percentil 75 dos tempos disponíveis).
Desfecho primário · Incidência de câncer colorretal
ASSOCIAÇÃO FAVORÁVEL| Casos de câncer colorretal | Taxa | |
|---|---|---|
| Aderentes | 1.994 | 156,4 |
| Não aderentes | 2.496 | 242,2 |
| Casos de câncer colorretal | Taxa | |
|---|---|---|
| Aderentes | 1.681 | 109,3 |
| Não aderentes | 1.628 | 145,8 |
Desfecho secundário · Mortalidade por câncer colorretal
ASSOCIAÇÃO FAVORÁVEL| Mortes por câncer colorretal | Taxa | |
|---|---|---|
| Aderentes | 257 | 20,3 |
| Não aderentes | 651 | 63,6 |
| Mortes por câncer colorretal | Taxa | |
|---|---|---|
| Aderentes | 212 | 14,0 |
| Não aderentes | 387 | 35,5 |
Indicador de viés · Mortalidade por causas não relacionadas ao câncer colorretal
INDICADOR DE VIÉSAvaliação de qualidade
Coorte grande, de base populacional, com desfecho aferido por registro de câncer e ajuste explícito de auto-seleção — pontos fortes relevantes. O domínio crítico é a confusão residual, dado o healthy adherer effect evidente e o ajuste limitado a idade. O gradiente de efeito por estádio do tumor é um argumento a favor de um efeito real do rastreio, difícil de explicar apenas por viés.
Número Necessário a Rastrear
| Faixa | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| 50–54 | 658 | 1.075 |
| 55–59 | 285 | 420 |
| 60–64 | 178 | 364 |
| 65–69 | 134 | 362 |
Método: Inverso da diferença de taxas de mortalidade idade-padronizadas (Tabela 3 do artigo): NNR em pessoas-ano = 100.000 / diferença de taxas; convertido para pessoas dividindo por um horizonte de seguimento de 10 anos.
O NNR global é ajustado para auto-seleção. O NNR por faixa etária é bruto — o artigo publicou o ajuste de auto-seleção apenas para a estimativa global; o ajuste desloca o NNR modestamente para cima.
Considerações de viés
Viés de seleção
Os grupos não foram aleatorizados — a exposição é a decisão de aderir. Aderentes tinham risco basal de câncer colorretal levemente menor que a população pré-rastreio (razão observado/esperado entre não aderentes de 1,03 em homens e 1,06 em mulheres). O ajuste de Puliti elevou pouco as estimativas (de 0,65 para 0,67 em homens; de 0,75 para 0,79 em mulheres), sugerindo auto-seleção de magnitude limitada para o desfecho câncer colorretal.
Confusão residual
Apenas idade foi ajustada na modelagem. Estilo de vida, escolaridade, renda, comorbidades e acesso a outros cuidados não foram medidos e podem confundir a associação na direção de superestimar o benefício.
Healthy adherer effect
Sinal claro de healthy adherer effect: a mortalidade por causas NÃO relacionadas ao câncer colorretal foi cerca de 45% menor entre aderentes (homens 0,45; mulheres 0,43). Como o rastreio de câncer colorretal não tem efeito plausível sobre, por exemplo, mortalidade cardiovascular, essa diferença indica que aderentes são, na origem, uma população substancialmente mais saudável. Parte do efeito atribuído ao rastreio reflete esse desequilíbrio basal.
Viés de tempo de antecipação
Em rastreio há antecipação diagnóstica. O excesso de tumores em estádio I entre aderentes (IRR 1,35 em homens, 1,64 em mulheres) é o efeito pretendido — diagnóstico mais precoce — e não um dano. O desenho com período de seguimento coincidente com o período de acrual reduz o viés de tempo de antecipação na análise da mortalidade de base incidente.
Outros
A exposição foi classificada apenas pelos 2 primeiros convites, mas ambos os grupos foram reconvidados depois — a contaminação cruzada existente viesa o resultado em direção à hipótese nula (atenua o efeito observado). Análise restrita a 6 dos distritos da região.
Adesão
A adesão ao rastreio organizado com teste imunoquímico fecal esteve associada a 33% menos casos de câncer colorretal em homens e 21% em mulheres, com queda ainda maior na mortalidade pela doença — cerca de 65% e 54%, respectivamente. O efeito foi progressivamente maior nos estádios mais avançados, e o excesso de tumores em estádio inicial entre aderentes é o resultado pretendido do rastreio: diagnóstico antecipado, não dano.
Trata-se de um estudo observacional: quem adere a rastreio é, na origem, mais saudável — neste estudo, a mortalidade por causas sem relação com o câncer colorretal também foi cerca de 45% menor entre aderentes. O ajuste para auto-seleção atenuou pouco as estimativas e o gradiente por estádio é difícil de explicar só por viés, mas o tamanho real do efeito do rastreio provavelmente está entre a estimativa observada e um valor mais conservador. Os dados reforçam a evidência que sustenta programas organizados de rastreio com teste imunoquímico fecal, ainda na ausência de ensaios randomizados.